domingo, 16 de novembro de 2014

As crianças presas no Tribunal da Relação do Porto no tempo de Camilo

“ O senhor Dias exercia na cadeia as funções de mestre-escola pelo sistema repentino. Os alunos, em número de dezoito, eram os gaiatos que a polícia removeu para ali da Porta de carros, e dos ajuntamentos , em que os lenços e caixas de rapé  se tornam muito duvidosa propriedade de seus donos. Estavam ali rapazinhos de oito a dezoito anos, conglobados todos num pequeno recinto. O senhor procurador régio providenciara caritativa e inteligentemente, ordenando que os rapazes fossem estremados da companhia dos presos nas enxovias. Ali  é que a perdição moral das crianças se consumava com as lições dos ladroes recalcitrantes, e matadores condenados a pena última. Contaram-me que, nas enxovias, alguns maiorais davam prelecções e cursos regulares de engenhenhosas ladroeiras. Dos discípulos, alguns privavam tanto em agudeza  e fina compreensão , que não era raro  ser o mestre roubado, enquanto preleccionava. Daquela escola saiu, há meses, uma leva de grumetes para a marinha de guerra portuguesa. Não nos parece coisa dura de tragar, se um dia a imprensa nos disser que eles meteram a marinha portuguesas na algibeira: tão pequena é ela, ou tão grandemente astuciosos eles são.”


Camilo castelo Branco (Memorias do Cárcere, Parceria A.M.Pereira, p. 115; Prefácio e organização de Maria Alzira Seixo), sobre as crianças presas na cadeia do Tribunal da Relação do Porto ao mesmo tempo que o escritor, que ai se encontrava em virtude de se ter tomado de amores por Ana Plácido.

crédito da imagem:
http://www.visitporto.travel/visitar/paginas/descobrir/DetalhesPOI.aspx?POI=2043

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