“ O senhor Dias exercia na cadeia as funções
de mestre-escola pelo sistema repentino. Os alunos, em número de dezoito, eram
os gaiatos que a polícia removeu para ali da Porta de carros, e dos
ajuntamentos , em que os lenços e caixas de rapé se tornam muito duvidosa propriedade de seus donos. Estavam
ali rapazinhos de oito a dezoito anos, conglobados todos num pequeno recinto. O
senhor procurador régio providenciara caritativa e inteligentemente, ordenando
que os rapazes fossem estremados da companhia dos presos nas enxovias. Ali é que a perdição moral das crianças se
consumava com as lições dos ladroes recalcitrantes, e matadores condenados a
pena última. Contaram-me que, nas enxovias, alguns maiorais davam prelecções e
cursos regulares de engenhenhosas ladroeiras. Dos discípulos, alguns privavam
tanto em agudeza e fina
compreensão , que não era raro ser
o mestre roubado, enquanto preleccionava. Daquela escola saiu, há meses, uma
leva de grumetes para a marinha de guerra portuguesa. Não nos parece coisa dura
de tragar, se um dia a imprensa nos disser que eles meteram a marinha
portuguesas na algibeira: tão pequena é ela, ou tão grandemente astuciosos eles
são.”
Camilo castelo Branco (Memorias do Cárcere,
Parceria A.M.Pereira, p. 115; Prefácio e organização de Maria Alzira Seixo),
sobre as crianças presas na cadeia do Tribunal da Relação do Porto ao mesmo tempo que o escritor, que ai se encontrava em virtude de se ter tomado de amores por Ana Plácido.
crédito da imagem:
http://www.visitporto.travel/visitar/paginas/descobrir/DetalhesPOI.aspx?POI=2043

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